quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Cela Luz

O sol forte clareava os olhos, mesmo com eles fechados, quando abriu a claridade a cegou. O calor era forte. Conforme foi acostumando a vista observou em volta, estava em um comodo não muito grande, as paredes eram escuras e não havia janelas, pareciam ser feitas de barro.

O teto, todo retalhado, deixava entrar vários feixes de luz que eram visíveis por causa da grande quantidade de pó no lugar.

Ao tentar sentir seu corpo percebeu que estava nua. Pensou em se mover, mas um medo irracional a deixava estática. Virou um pouco sobre os tornozelos para ver melhor o local onde se encontrava.

Observou do outro lado do comodo, encostada numa parede, uma outra pessoa, imóvel. As poucas partes que podia ver daquele corpo iluminado pelo sol estavam todas tatuadas. Ela acenou para a garota do outro lado da sala, e nada. Perguntou que lugar era aquele, quem ela era, o que havia acontecido, e nada.

Já horrorizada de medo por não saber onde estava, não saber como tinha chegado ali, não saber o que estava acontecendo, ela iniciou um passo a frente, o que fez a pessoa encostada na parede imediatamente começar a grita. A pessoa dava gritos de horror, urrava, o que fez ela voltar para onde estava, e a pessoa parou de urrar.

Ambas muito assustadas estavam muito assustadas,

A menina no meio da sala mais algumas vezes tentou se mover, mas percebeu que a pessoa encostada na parede gritava horrorizada cada vez que ela se movia.

As duas imóveis ficaram lá por algum tempo se encarando, minutos, horas, dias, ela já não sabia exatamente há quanto tempo estava lá.

Conforme o tempo passava as colunas de luz começaram a se mover, e a menina da parede voltava a berrar, e então Clara se movia para a luz novamente.

"Clara, eu sou Clara, qual o seu nome?"

A pessoa não dizia uma palavra, Clara via agora que era uma menina, já havia percebido pelo tom de voz nos berros, e agora pelas formas no corpo cada vez mais iluminado pelo sol. Ela percebia também que a luz a estava empurrando para a parede junto da menina.

Num ato de desespero e pânico Clara começou a caminhar para a menina, e ela voltou a berrar, mas ela ignorou e completou o primeiro passo. Neste momento, longe da luz, o mundo se apagou e ela notou que naquele  local não estava apenas a duas, inúmeras sombras estava à volta delas.

Clara se assuntou, deu um passo atrás e esbarrou em algo, algo a agarrou, ela teve uma sensação gélida, o que a tocou não apenas era frio, mas fazia com que ela toda esfriasse, e todos que estava a volta dela a notaram, e começaram a ir de encontro dela.

Desesperadamente ela viu o feixe de luz que vinha do teto e pulou para lá, imediatamente as sombras sumiram. A menina do outro lado da sala continuava berrando, mesmo com ela de volta na luz.

Clara voltou a ficar estática até a garota do outro lado da sala se acalmar. E assim ficou no começo com muitas perguntas na cabeça, depois gritava para a menina e para quem mais quisesse ouvir, e não havia respostas.

Conforme o tempo passava as duas estava cada vez mais próximas. E cada vez que Clara tentava sair do foco da luz aquelas sombras corriam em direção à ela e ela se assustava e voltava para a luz.

Quando finalmente a luz do teto a trouxe para perto da menina, ela abriu os braços e se agarrou a Clara como se estivesse com muito medo. Clara a acudiu nos seus braços com carinho, como se elas fossem cumplicies de algo horrível que houvesse acontecido com elas. E então a menina falou.

"Ainda bem que você chegou, eu estava com tanta fome."

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Sobressalto

Estava de frente à uma grande igreja em ruínas, em meio a uma rua de pedras cinzentas. Olhou para todos os lados, não havia ninguém, e não havia nada mais.

Olhava a igreja com certa curiosidade, algo naquela cena estava errado. Forçou os olhos para tentar enxergar o que havia no topo de uma das torres ainda em pé, e viu que um dos sinos estava suspenso no ar sem nenhum apoio.

Tentou forçar um pouco mais a visão, mas não sabia exatamente o que estava vendo. A torre direita, já consumida até meia altura de onde a outra estava, não tinha nada de anormal. Os poucos restos de paredes, alguns pulares, e o altar ainda estavam de pé. Ele percebeu que o altar estava limpo, no meio de toda aquela sujeira, as pedras brancas como leite, a madeira de lei do que era constituída a mesa, e a cruz vazia no fundo.

Ele tentou mexer os pés, mas uma força parece que o impedia de se mexer, ou talvez não tivesse força, o estranho formigamento que sentia quanto tentava mexer as pernas o fez desistir e olhar a volta.

Agora beirando a rua ele via várias ruínas de casas até perder de vista, meias paredes, alguns tetos, assim como os dentes podres na boca de alguém, onde apenas alguns tocos pretos surgiam durante uma risada.

O formigamento tomou sua cintura, uma estranha agitação veio com ele, os músculos do braço e tórax se enrijeceram, ele sentiu uma forte ansiedade, o pescoço começou a doer, o peito apertou, tentou gritar, mas já estava se contorcendo todo, embora imóvel.

Quando finalmente seu corpo relaxou ele suava frio, ofegante, em pé, imóvel. Sua cabeça latejava como se expandisse conforme respirasse.

"Um sonho" ele pensou, "talvez um pesadelo", respirou fundo, apertou os olhos com as mãos, esfregou e abriu novamente. ainda estava lá. Olhou as mãos e viu sua pele, e buracos em sua pele, e a fibra dos seus músculos, partes de ossos, articulações, tendões, nervos. O choro surgiu em seu peito como soluçar, invadiu sua garganta em cada nó, porém suas lágrimas não caíram. Sua avó diria que ele estaria fazendo manhã, onde já se viu chorar sem lágrimas.

Desesperado, esfregou os olhos novamente, pedindo para acordar daquele pesadelo. Esfregou até sentir os olhos doerem, e então tirou a mão da frente, a visão negra e turva foi clareando lentamente, mas ainda estava lá.

"Você está fazendo errado."

Uma voz de criança falou atrás dele. Ele virou espantado, já sem problemas para mexer as pernas, mas também não havia percebido o que fez.

"Não é assim que você faz, é assim."

A menina de cabelos ruivos esfregou os olhos e pouco antes de soltar as mãos desapareceu no ar. Perplexo, percebeu que atrás dele havia uma linha de trem e uma plataforma de madeira e ferro, para quem fosse embarcar no trem não precisar enfrentar os altos lances de degraus.

"Você também está esperando o trem?"

A menina ruiva estava atrás dele. Ele se virou para ela.

"Como assim "também"?"

"Todo mundo aqui está esperando o trem."

Ele olhou novamente para trás e percebeu que haviam muitas pessoas paradas na plataforma de madeira, e outras ainda sentadas em banco ao longo de calçadas que se formavam de ambos os lados da rua. Todas essas pessoas eram como ele, cheia de buracos na pele, onde era possível ver os músculos, ossos, tendões articulações, mas ninguém parecia se incomodar. Na verdade nem ele realmente se incomodava, não doía, não sentia, era como se ele fosse assim, "incompleto" pensou. Tudo lá ele via "incompleto".

"Para onde vai o trem?"

"Faz diferença?"

"Ué? Faz, não faz?"

"Não sei." a menina responde de olhos baixos "eu nunca fui, tenho medo de entrar lá, não sei para onde vai."

"E se eu não quiser ir, para onde eu vou? Posso ir pra casa?"

"Não sei, eu acho que não."

"Mas... para onde você foi quando fez assim?" Ele repetiu o gesto de esfregar os olhos.

"Ah, para um lugar escuro onde não tem nada."

Um velho trem Maria Fumaça apitava anunciando sua chegada. Ele olhou para a planície a perder de vista, e viu de longe a chaminé vaporando.

"Faz quanto tempo que você está aqui?"

"Muito" A menina baixou mais os olhos ainda, como se estivesse triste mas impedida de chorar.

"E por que não pega o trem?"

"Eu tenho medo, não sei para onde ele vai... e se meus pais vierem me procurar? E eu não estiver mais aqui."

"Mas eles sabem que você está aqui?" Ele se ajoelhou e tocou a menina demonstrando empatia.

"Não sei." A menina esfregou os olhos e sumiu novamente. "É escuro aqui" ela sussurrou em seu ouvido, mas já não havia mais menina de cabelos ruivos.

Ele subiu na plataforma, assim como todos estava fazendo, e quando trem parou ele viu dentro do vagão muitas outras pessoas, todas como ele, e como os outros que ali estavam, "incompletas". As pessoas foram entrando nos vagões e quando parecia que não caberia mais ninguém, elas continuaram entrando, e entrando. Ele observo come medo, fez menção de entrar, chegou até bem próximo a porta, mas desistia.

Quando todos entram as portas ainda ficaram mais um tempo abertas, um senhor vestido de maquinista colocou a cabeça para fora da máquina olhando para ele, olhou, olhou, finalmente deu um longo apitou e as portas se fecharam, e o trem começou a partir. Ele olhava o acelerar lento da locomotiva.

"Corra" ele escutou quando o trem já estava no meio da plataforma, e ele correu, correu, mirando a pequena sacada que ficava do ultimo vagão, correu o mais rápido que pode, e quando não pode mais saltou para alcançar o beiral de ferro, mas não pegou.

Num sobre salto ele se estremeceu em sua cama, como quem sonha que vai cair, suado e desesperado acendeu imediatamente a luz e viu seu quarto, olhou para si e estava tudo normal, tudo certo, verificou barriga, perna, cabeça. Levantou, foi até a cozinha, bebeu água, voltou para cama com o alívio de que era apenas um sonho, um pesadelo. Olhou para o relógio, havia tempo ainda para dormir.

Considerou se dormiria ou não, mas que mal poderia haver, estava com sono. Apagou a luz, virou para o lado, e dormiu.

"É escuro aqui."

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Como ser um guerreiro

O pequeno Kin estava sentado no alto de uma grande pedra com seu avô e observava alegremente treze guerreiros de sua tribo voltando animados e barulhentos, gargalhavam, se empurravam, corriam e entoavam gritos de guerra.

- Vovô, quero ser um guerreiro, forte e destemido. - Kin levantou-se da pedra e socava o ar.

- Kin, você sabe que eu fui um guerreiro há muito tempo atrás né.

- Eu sei vovô, você foi o maior guerreiro de nossa aldeia, foi um dos únicos sobreviventes da guerra contra a aldeia do lado, e ganhou a guerra para nós, e virou nosso chefe depois disso. Eu quero ser igual ao senhor quando crescer vovô.

Vovô Gun gargalhava com Kin socando e chutando ar.

- Você quer que eu te ensine a ser o maior guerreiro de todos Kin?

- Você vai me treinar vovô?

- Vou, faz assim, amanha, quando o primeiro galo cantar você levanta e vai me encontrar perto da grande arvore.

Kin saiu correndo, pulando, socando e chutando o ar e gritando em direção a aldeia, contava a todos que encontrava pelo caminho que seu avô iria ensinar ele a ser um grande guerreiro, o maior de todos.

A noite, na fogueira menor, Kin comia depressa, queria dormir logo para que chegasse logo o amanhecer. Mas quando deitou estava eufórico, com medo de perder o cantar do galo, não dormiu. A noite não passa rápido para aqueles que esperam.

Quando finalmente o galo cantou, Kin pulou da cama e correu em direção da grande arvore. Seu avô já estava sentado em um tronco ao lado da arvore, apoiado em seu cajado e fumando um cachimbo.

- Pronto vovô estou pronto, já pode me ensinar a lutar. - Kin estava parado, com o peito estufado e forçando os poucos músculos sobre seu corpo magricela.

- Lutar Kin? Magricela deste jeito? Primeiro vai ter que comer bastante para colocar um pouco de peso nesses braços.

- Hum. Estou com fome mesmo vovô, ontem a noite não comi direito. O que vamos comer? Abacates? Bananas?

- Menino, de onde vem a comida?

- Da terra vovô.

- Então para comer a gente tem que plantar.

- Isso. - Kin estava orgulhoso de responder corretamente.

- Então Kin, vamos preparar esta terra para ser plantada, pegue ali as ferramentas.

- Mas vovô, eu não quero plantar, eu quero ser um guerreiro como você.

- Um guerreiro tem que comer Kin.

- Mas isso não é trabalho de guerreiro.

- Um guerreiro só se formou porque comeu, sem isto não existe guerreiro.

Kin já sem argumentos pegou as coisas do lado da grande arvore e começou a trabalhar a terra. Durante seis meses seu avô o fez levantar junto com o primeiro cantar do galo e preparar a terra, cuidar da plantação e colher tudo que havia plantado.

Seis meses depois, em uma manhã fria, Kin chegou emburrado.

- Não vou mais fazer isso vovô. Você falou que ia me ensinar a ser um grande guerreiro, e eu não estou aprendendo nada, só trabalhando nessa plantação boba.

- Você tem razão Kin, desculpe, faça assim, vá descansar e me encontre no meio do dia na grande oca da aldeia. Vou te ensinar algo útil de verdade.

Kin deu um sorriso e voltou correndo para a aldeia. Quando o sol estava a pico ele estava prostrado na frente da grande oca.

Uma das mulheres chamou Kin para dentro.

- Não posso entrar, estou esperando o vovô. Ele vai me ensinar a ser um grande guerreiro.

A mulher foi até Kin.

- Kin, seu avô partiu para a aldeia do irmão dele, pois ele está muito doente. e pediu que eu lhe passasse o que ele ia te ensinar.

- Mas você é uma mulher.

- É, você tem razão Kin. - Nala se voltou para dentro da grande oca. - Tuã, venha cá.

Tuã era um dos 13 rapazes que há 6 meses atrás voltava da aldeia vizinha após os jogos de guerra. Kin estava contente, pois ele era um exemplo de guerreiro, ele sim poderia ensinar Kin.

- Oi Kin, como vai?

- Bem Tuã, você vai me treinar?

- Vou sim, vamos, entre.

Kin entrou curioso, o que faria na grande oca? O que poderia treinar lá?

- Pronto Kin, pegue este pilão, temos que transformar estas mandiocas em farinha.

- Mas Tuã... eu quero ser um guerreiro, não o cozinheiro.

- Ora Kin, precisa de muita força para transformar a mandioca em farinha, veja - Tuã levantava o grande socador e com muita força socava as mandiocas que Nala colocava no pilão.

No começo Kin até sem empolgou com o fato de se exercitar, e depois aprender a fazer as coisas que a tribo comia, ainda aprendeu a ir até a mata e colher ervas tanto para temperos quando para cura. Nala caminhava com ele todas as manhas explicando para que cada erva funcionava, onde elas deveriam ser colhidas, como deveriam ser utilizadas.

Ainda Kin aprendeu a cozinhar todas as coisas que havia plantado no passado, e como prepará-las.

Embora Kin gostasse de aprender, sentia-se cada vez mais distante de ser um guerreiro.

Oito meses se passaram, e seu avô retornou de sua viagem, abatido pela perda do irmão. Kin respeitou seu luto e manteve-se em seu canto, com suas atividades.

Certo dia, quando Kin voltava da mata com ervas encontrou seu avô sentado perto da grande arvore, fumando seu cachimbo.

- Kin, como está o treinamento para ser um grande guerreiro? Tuã e Nala estão te ensinando bem?

- Não sou um guerreiro vovô, sou um cozinheiro. Você me enganou.

Gon acertou a cabeça do pequeno Kin com um pedaço de madeira que usava como apoio para caminhar.

- Menino. Como você pode chamar o chefe desta tribo de mentiroso?

Kin começou a chorar e deixou todas as ervas caírem no chão.

- Está certo menino, leve as ervas para dentro e me encontre na saída da aldeia, vamos corra.

Com lágrimas nos olhos e fungando Kin correu até a grande oca, jogou tudo em cima de qualquer lugar e saiu correndo para a entrada da aldeia. Gon esperava ele com um arco e flecha na mão.

Ao ver a arma na mão de seu avô, o sorriso de Kin traçou de orelha-a-orelha.

- Você sabe atirar Kin?

- Sim, eu sei.

- Então tome. - Gon entregou uma atiradeira para Kin que ficou triste por não pegar o arco e flecha.

- E você quer que eu acerto o que vovô?

- Vamos caçar.

- Caçar? Comida de novo vovô?

- Você engordou um pouco desde que parti, mas não muito, precisa comer mais.

Vovô Gon ensinou Kin a caçar com a atiradeira, a faz armadilhas, a utilizar o arco e flecha, a lança, ensinou a pescar. Kin já fazia diferença no sustento de sua tribo.

Um dia, enquanto espreitava uma grande ave selvagem, ouviu gritos e gargalhadas. Eram os 13 guerreiros escolhidos de sua tribo indo para os jogos de guerra na aldeia vizinha, de tempos em tempos as duas tribos se reuniam para os jogos. Foi uma forma que o chefe Gon e o chefe Tun acertaram para acabar com as disputas entre as duas tribos.

Kin notou que um dos escolhidos era apenas um pouco mais velho que você. E enquanto aquele garoto aprendeu a ser um guerreiro, ele aprendeu a cozinhar.

Kin correu pela mata para a aldeia, chegando observou tudo a sua volta, todos estavam cumprindo seu papel. Observava um por um, tinha raiva, e procurava alguém especifico.

Quando viu vovô Gon ao lado da grande arvore correu até ele, os anos de caça haviam passado e Kin já era um rapaz grande e bem formado. Ele chegou perto de vovô Gon, olhou nos seus olhos com todo o ódio que existia dentro dele e partiu para sua oca.

Alguns dias se passaram e Kin não saia de sua oca. Vovô Gon foi até lá.

- Menino...

- Eu não sou mais um menino.

- Kin, um grande guerreiro sabe lidar com as decepções, por maiores que elas sejam.

- Decepções? Por que eu fui dar ouvidos para você? Eu queria ser um guerreiro, e você me transformou em mais um da tribo, um ninguém. Devia ter seguido meu caminho sozinho. Sem você.

- Um grande guerreiro é aquele que está onde é preciso Kin, foi isso que eu quis te ensinar, eu te ensinei o valor das coisas, do trabalho do esforço. Eu te ensinei a ser tudo, e não só um guerreiro, você é tudo o que uma tribo precisa e admira, inclusive um guerreiro.

Kin continuava deitado de costas para vovô Gon

- O dia que esta tribo passar fome você vai saber alimenta-la. O dia que ela for destruída, você vai saber reconstruí-la. O dia que ela adoecer, você vai saber cura-la. O maior guerreiro de todos não é aquele que subjuga seu inimigo, e sim aquele que salva seu povo, não importa contra quem é a batalha. O maior inimigo não é aquele que podemos ver e sim aquele que não enxegarmos, e nem sabemos que são nossos inimigos, pois não são pessoas.

... O verdadeiro guerreiro é aquele que é admirado pela tribo e a tribo o segue, pois todos sabem que ele faria pela tribo o que todos fazem por ele, e todos sabem que ele é capaz de fazer qualquer coisa. O grande guerreiro não é um guerreiro, é um líder, pois sabe o valor de cada coisa, de cada um, e sabe como levar todos para a vitória, e a vitória é a paz, e se houve guerra não há paz, e nem vitória.

... Hoje pequeno Kin, você sabe o valor e o esforço que uma tribo tem para existir, e por isso sei de coração que você nunca irá sair daqui para atacar outra tribo por motivos levianos, ou por qualquer outro motivo que seja. Nem território, nem posses e nem nada.

Vovô Gon saiu da oca de Kin com a certeza que havia tocado o coração dele de alguma maneira.

Kin levantou na manhã seguinte e foi até a tribo vizinha acompanhar as lutas dos 26 guerreiros. Depois de 5 dias voltou com os 13 guerreiros de sua tribo, Kin animado gritava e brincava com eles no caminho de volta, o que seu avô lhe dissera realmente tocou seu coração, e já estava mais leve, e se sentia parte de tudo isso.

Quando chegou em sua tribo todos estavam na frente da oca de seu avô. Kin correu até a entrada e vovô Gon estava agonizando. Uma cobra o atacou enquanto ele estava sentado fumando seu cachimbo perto da grande arvore.

Ao ver o menino Kin, vovô Gon o chamou para perto:

- Kin, hoje você aprende a ultima lição, o valor da vida de quem amamos, sempre que você tirar a vida de alguém deve saber que está tirando a vida de uma pessoa que é amada, e que ama alguém. É natural partimos, mas quando o responsável é você, isso não é natural. O maior guerreiro de todos é aquele que sempre resolve as coisas sem precisar levantar os punhos. Nenhuma vida tem valor nas mãos de quem mata, acaba deixando de lado o valor da própria vida, e neste momento deixa de ser um guerreiro digno.

Kin chorou a morte de seu avô, e seguiu os passos dele se tornando chefe da tribo, seguiu os seus ensinamentos, e enquanto esteve vivo a tribo nunca guerreou.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Feitos de Estrelas e Sonhos 2 - Estrela

- Estela, é hora de levantar.

Estela acordou num salto, olhou para o lado, João dormia profundamente. Levantou como toda manhã, tomou banho, fez café, ajeitou suas coisas, se vestiu, olhou novamente para João dormindo e partiu.

Enquanto caminhava as 16 quadras até onde trabalhava, onde 20 crianças ansiosas esperavam sua professora, ela estava agitada e atormentada.

- Esta não é sua vida Estela, você está perdendo tempo aí.

Estela ignorava a voz em sua cabeça.

- Você sabe que ele não é como você, não importa o que você ache, ele pode ser bom ou ruim, não importa, ele simplesmente não é como você.

Atravessou a rua olhando para os dois lados cuidadosamente.

- Vocês cometeram um erro ficando juntos, nem você e nem ele podem ser quem são nessa situação. Já chega dessa aventura.

O Sussurro em sua mente aumentava de tom pouco a pouco.

- Estela não me ignore. Você sabe que o que estou falando está certo. Estela? ESTELA!

Estela parou. Respirou fundo. Era só atravessar a rua e entrar na escola.

- Estela, seja racional, vamos acabar com isso antes que alguém sofra.

- E eu? - Ela disse em voz alta no meio da rua. - Ninguém liga se eu sofrer?

Estela esperou uma resposta do Sussurro, mas agora ele estava mudo. Ela atravessou a rua e entrou na escola.

domingo, 13 de setembro de 2015

Quando fecho os olhos

Fecho os olhos, os músculos relaxam e se esparramam pela cama... Quando eu era criança eu tinha medo de dormir, medo de não acordar, medo do que pudesse acontecer comigo enquanto eu estivesse fora do meu corpo. E se eu não encontrasse o caminho de volta? E se eu morresse enquanto estivesse dormindo?

As vezes ainda penso nestes medos antes de dormir, será que havia alguma razão nestes medos?

Eu tinha muitos sonhos, acordava as vezes maravilhados com as coisas que ocorriam, as vezes acreditava que meus sonhos haviam ocorrido de verdade, talvez em um mundo paralelo. Talvez sonhar fosse como despertar para outra vida, e tudo que eu fiz lá realmente aconteceu, em um outro lugar.

Hoje eu durmo, quando acordo não há nenhuma lembrança. Raras são as vezes que me lembro de algo, dá para contar nos dedos quantas vezes eu sonhei no ultimo ano.

Não é como se eu tivesse deitado para dormir e acordasse um segundo depois e já era de manhã. Não. É como se eu tivesse ficado fora por toda a noite, mas não lembro de absolutamente nada do que ocorreu.

As vezes acordo com dores no corpo, ossos, juntas e músculos, como se eu tivesse dormido por dias, talvez semanas, e quando acordo meu corpo reclamada a falta de movimento. Sinto cada junta dos meus tornozelos e dos pulsos.

Será que ainda vou para os lugares onde eu ia quando era criança, será que ainda visito as mesmas pessoas, que percorro os mesmos lugares, será que ainda existe este outro mundo? Um mundo onde eu sou eu, mas nada é igual aqui.

Antes eu dormia com medo, acho que estava sempre ligado a esta realidade, por isso nada me fugia da mente, pois estava sempre atento para a hora de voltar.

Hoje eu me deito, fecho os olhos e os músculos relaxam e se esparramam pela cama, tenho certeza e convicção que irei dormir, sem medo de me perder no caminho de volta. Será que agora vivo essa outra vida sem as preocupações dessa? Será que quando acordo do outro lado este outro eu também não sabe nada do que está ocorrendo aqui?

Seria sorte dele se não tivesse que conviver com meus medos de agora, com as angústias dessa vida de adulto. Será que ele cresceu?

Do outro lado do espelho antes eu via quem eu gostaria de ser. Hoje vejo quem me tornei. Será que ele sabe tudo que eu conquistei? Será que reflete nele todas as emoções que senti? Tantas momentos felizes, tantas lutas, vitórias, o esforço, as pessoas à minha volta, aquelas com quem compartilho minha vida, será que ele sabe de tudo isso, assim como sabia quando eu era uma criança?

Meus sonhos ajudaram a me manter são, ajudaram a me manter esperançoso, me ajudaram a fugir da realidade quando esta parecia dura demais. Hoje me perco em pensamentos quando preciso estar alheio à realidade, mas não tem o mesmo sabor de um sonho.

Hoje em dia quando sonho, não é a mesma coisa. Tudo é diferente, tudo é mais real, hoje em dia quando sonho ainda estou aqui, como se eu estivesse sonhando acordado, como se eu não fosse para este outro mundo.

Tanto tempo tive medo de dormir e me perder, e hoje em dia não sei mais como chegar ao sonhar.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Feitos de Estrelas e Sonhos 1 - Sonho

Três e vinte e oito, João senta na cama sentindo uma sensação familiar no estomago, observou a volta o quarto alaranjado pela luz da rua. As partículas de poeira estavam suspensas no ar como se a gravidade estivesse prestes a deixar de existir e tudo estivesse quase a ponto de flutuar.

Observou sua esposa dormindo ao lado, três e vinte e oito, no começo foi difícil se acostumar com este horário, desde que começaram a dormir juntos ele sempre acordava as três e vinte e oito da manhã com uma estranha sensação no estomago, daqueles frios na barriga quando o carro passa rápido por uma elevação ou quando o avião começa a pousar.

O mais engraçado que Estela nunca acordou de madrugada, como se ela nem estivesse ali, como se ela estivesse em qualquer outro lugar, menos ali observando os estranhos fatos que aconteciam as três e vinte e oito.

João já não deixava mais copos de água, pedaços de papéis ou qualquer coisa muito leve no quarto, pois tinham o costume de ficarem suspensos. As vezes podia ver até a própria luz se curvar para cima. Chegou a achar que ficou louco. Tentou acordar Estela para mostrar as coisas que ocorriam, mas nada.

Quando comentava no dia seguinte com Estela, ela dava de ombros e dizia "você diz que tudo é feito de estrelas, estrelas não ficam presas em planetas.", e continuava a passar o café.

Quando olhou novamente para Estela, João congelou, ela estava com uma estranha textura, brilhava como no dia que a viu pela primeira vez, e as partículas de seu corpo não pareciam mais estar tão juntas, como se ela fosse um punhado de areia fina que voaria a qualquer sopro de vento.

Estendeu os braços para toca-la, mas percebeu que as partículas de seu corpo cintilante se movimentaram como uma onda num lago tranquilo.

Recolheu o braço aproximou o rosto da cabeça dela e disse:

- Não vá ainda meu amor, não vá agora, eu preciso de você, fique o quanto puder.

Estela permaneceu imóvel, como todas as noites, mas após dizer isto o estomago de João voltou ao normal, e ele percebeu novamente Estela como ela mesma.

Diferente de outras noites, João não dormiu mais, ficou perdido em pensamentos perturbadores...

"... como eu fui ingênuo, uma estrela nunca fica no mesmo lugar, um dia ela vai embora se juntar às outras estrelas no céu... como posso fazer para que ela fique? o que preciso fazer para ir com ela?"

A cada frase que pensava seu peito apertava mais e mais.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Pique-esconde

Desde que eu me lembro de criança eu sempre tive este "problema" com atenção. Na escola, no dia-a-dia, em casa, em qualquer lugar, qualquer coisa podia tirar minha atenção, inclusive eu mesmo.

Hoje em dia já deram nomes para isso, e até remédios, vejo crianças e adultos sendo medicados e tratados. Mas na minha época não. "Avoado", "lerdo", "vive no mundo da lua", ou qualquer coisa assim. Não importava minhas boas notas na escola, o fato de eu não querer copiar um texto que a professora escreveu na lousa, e preferir pensar em qualquer outra coisa e ficar de nova num mundo criado por mim era o suficiente para chamar os meus pais, ou mandar bilhetes para eles.

Eu lembro que nessa época eu também não colava nas provas, não conseguia, colar exige muita concentração, era mais fácil estudar, eu geralmente assimilava bem as aulas, principalmente as de matemática. Não era difícil estudar, prestar atenção num assunto repetitivo que a professora dava por 40 minutos durante 3 ou 4 dias seguidos, isso sim era difícil.

Não. Não. Sabe o que era realmente difícil? Pique-esconde, caraca, como isso era difícil. Primeiro porque você tinha que se esconder e ficar lá quieto, e eu não era bom de ficar quieto sabe, eu tinha uma necessidade enorme de me movimentar, ainda mais quando eu perdia o foco, e acabava saindo dar um rolê pela minha mente. Então ou eu me mexia de um jeito que acabavam me descobrindo, ou eu desistia e saia correndo desesperadamente para o pique. Foi quando descobri que eu podia sim correr de chinelo Rider, mas que corria sem corria mais rápido.

E então era eu que contava para os outros se esconderem. Bem, nessa época nós tínhamos duas opções, ou correr atrás das pessoas descobertas e toca-las, ou correr até o pique e gritar o nome da pessoa e onde ela estava.

E eu não sabia nem metade dos nomes das crianças que brincavam na praça, fora os amigos do dia-a-dia, não tinha ideia o nome de ninguém. Você sabe o que isso significa? Que eu tinha que correr atrás de todo mundo. DE TODO MUNDO.

O problema com nomes permanece até hoje. Levo algumas semanas para gravar os nomes das pessoas, isso se eu ver elas com frequência.

Bem, o "problema" com concentração também permanece até hoje.

Hum... e o problema em não conseguir ficar parado também.

As vezes esqueço rostos, ou tenho dificuldade de grava-los na memória. Mas nada sério. Sério, nada sério mesmo, já fui em psicólogos. O máximo que fizeram foi perguntar se eu já havia tomado algo para essa agitação toda.

Acho que chá de erva cidreira ou camomila não é uma boa resposta para a pergunta deles. Bem, 50% de todos os problemas da minha infância eram resolvidos com algum chá. Os outros 50% com salmoura. Algumas vezes arnica ou injeção. Eu realmente não gostava de injeção, nem de soro. Credo.

E não só de pique-esconde que me lembro, tinham os jogos de cartas. Quais? Todos. Todos os jogos de cartas exigem atenção. Então passar sinais em truco não dá. Brincar de burro? De jeito nenhum, eu sempre estava vendo a TV enquanto todos já baixavam as cartas e ficavam rindo de mim baixinho.

No xadrez eu ia bem nos 5 primeiros minutos. Bem, em qualquer coisa que durasse 5 minutos na minha infância eu ia bem, mais que isso esquece. Talvez fosse por isso que eu não gostava de assistir futebol com meu pai. Mas ele acertou em me colocar em artes marciais, eu gostava de Karatê Kid, e me ajudava a gastar energia.

Mas é isso aí, eu me diverti muito na infância, todas essas coisas não me atrapalhavam, e só percebo tudo isso agora. Principalmente quando lembro das professoras na escola reclamando da minha lerdeza em copiar as coisas da lousa, e depois eu tirando notas boas.